sábado, 8 de maio de 2010

Salmo 107: Louvor a Deus e pedido de auxílio (Meditação do Pp. João Paulo II).

Salmo 107 (108)
2 Meu coração está pronto, meu Deus, *
está pronto o meu coração!
 – Vou cantar e tocar para vós: *
desperta, minh'alma, desperta!
 –3 Despertem a harpa e a lira, *
eu irei acordar a aurora! 
 –4 Vou louvar-vos, Senhor, entre os povos, *
dar-vos graças por entre as nações!
5 Vosso amor é mais alto que os céus, *
mais que as nuvens a vossa verdade!  
6 Elevai-vos, ó Deus, sobre os céus, *
vossa glória refulja na terra!
7 Sejam livres os vossos amados, *
vossa mão nos ajude, ouvi-nos!  
=8 Deus falou em seu santo lugar: †
'Exultarei, repartindo Siquém, *
e o vale em Sucot medirei.
 =9 Galaad, Manassés me pertencem, †
Efraim é o meu capacete, *
e Judá, o meu cetro real.
=10 É Moab minha bacia de banho, †
sobre Edom eu porei meu calçado, *
vencerei a nação filistéia!' 
11 Quem me leva à cidade segura, *
e a Edom quem me vai conduzir,
12 se vós, Deus, rejeitais vosso povo *
e não mais conduzis nossas tropas?
13 Dai-nos, Deus, vosso auxílio na angústia, *
nada vale o socorro dos homens!
14 Mas com Deus nós faremos proezas, *
e ele vai esmagar o opressor. 


Queridos irmãos e irmãs,
O Salmo 107 que agora nos foi proposto faz parte da sequência dos Salmos da Liturgia das Laudes, objecto das nossas catequeses. Ele apresenta uma característica, à primeira vista, surpreendente. A composição não é mais do que a fusão de dois fragmentos de salmos pré-existentes, um tirado do Salmo 56 (vv. 8-12) e outro do Salmo 59 (vv. 7-14). O primeiro fragmento tem uma tonalidade hínica, o segundo uma marca suplicante, mas com um oráculo divino que confere ao orante serenidade e confiança.

Esta fusão dá origem a uma nova oração e isto torna-se exemplar para nós. Na realidade, também a liturgia cristã muitas vezes funde trechos bíblicos diferentes de forma que os transforma num texto novo, destinado a iluminar situações inéditas. Contudo, permanece o vínculo com a base originária. Na prática, o Salmo 107 (mas não é o único; veja-se, só para mencionar outro testemunho, o Salmo 143) mostra como já Israel no Antigo Testamento utilizava de novo e actualizava a Palavra de Deus revelada.

O Salmo que deriva desta combinação é, portanto, algo mais do que a simples soma ou justaposição dos dois trechos pré-existentes. Em vez de começar com uma humilde súplica como o Salmo 56, "Tende piedade de mim, ó Deus" (v. 2), o novo Salmo começa com um anúncio resoluto de louvor a Deus:  "O meu coração, Senhor, está contente, quero cantar-Vos e Louvar-Vos" (Sl 107, 2). Este louvor ocupa o lugar da lamentação que formava o começo do outro Salmo (cf. Sl 59, 1-6), e torna-se assim a base do oráculo seguinte (Sl 59, 8-10 = Sl 107, 8-10) e da súplica que o rodeia (Sl 59, 7.11-14 = Sl 107, 7.11-14).
Esperança e pesadelo fundem-se e tornam-se substância da nova oração, completamente orientada para dar confiança também no tempo da prova vivida por toda a comunidade.

Por conseguinte, o Salmo começa com um hino jubiloso de louvor. É um cântico matutino acompanhado da harpa e da cítara (cf. Sl 107, 3). A mensagem é límpida e tem no centro a "bondade" e a "verdade" divina (cf. v. 5):  em hebraico, hésed e 'emèt, são as palavras típicas para definir a fidelidade amorosa do Senhor em relação à aliança com o seu povo. Com base nesta fidelidade, o povo tem a certeza de que nunca será abandonado por Deus no abismo do nada e do desespero.

A nova leitura cristã interpreta este Salmo de maneira particularmente sugestiva. No v. 6 o Salmista celebra a glória transcendente de Deus:  "Elevai-Vos (ou seja, "sê exaltado"), Senhor, sobre os céus!". Ao comentar este Salmo, Orígenes, remete para a frase de Jesus:  "E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim" (Jo 12, 32) que se refere à crucifixão. Ela tem como resultado o que afirma o versículo seguinte:  "Sejam livres os Vossos amigos" (Sl 107, 7). Então Orígenes conclui:  Que significado maravilhoso! O motivo pelo qual o Senhor é crucificado e exaltado é que os seus amados sejam livres... Realizou-se tudo o que pedimos:  ele foi exaltado e nós fomos libertados" (Orígenes-Jerónimo, 74 homilias sobre o livro dos Salmos, Milão 1993, pág. 367).

Passamos agora à segunda parte do Salmo 107, citação parcial do Salmo 59, como foi dito. Na angústia de Israel, que sente Deus ausente e distante ("Vós, Deus, que nos repelistes":  v. 12), ergue-se a voz do oráculo do Senhor que ressoa no templo (cf. vv. 8-10). Nesta revelação Deus apresenta-se como árbitro e senhor de toda a terra santa, da cidade de Siquém ao vale da Transjordânia, Sukkot, das regiões orientais de Galaad e Manassés às centro-meridionais de Efraim e Judá, alcançando também os territórios vassalos, mas estrangeiros, de Moab, Edom e Filisteia.

Com palavras vivas de inspiração militar ou com marcas jurídicas proclama-se o domínio divino sobre a terra prometida. Se o Senhor reina, não devemos temer:  não somos atirados para aqui e para ali pelas forças obscuras do destino ou da confusão. Há sempre, também nos momentos tenebrosos, um projecto superior que rege a história.

Esta fé acende a chama da esperança. Contudo, Deus indicará uma solução, ou seja, uma "cidade fortificada" colocada na região de Edom. Isto significa que, apesar da prova e do silêncio, Deus voltará a revelar-se, a apoiar e orientar o seu povo. Só d'Ele pode vir a ajuda decisiva e não das alianças militares externas, ou seja, da força das armas (cf. v. 13). E só com Ele se obterá a liberdade e se farão "obras grandiosas" (cf. v. 14).
Recordamos com São Jerónimo a última lição do Salmista, interpretada em chave cristã:  "Ninguém se deve perder por este caminho. Tens Cristo e tens receio? Será Ele a nossa força, o nosso pão, o nosso guia" (Breviarium in Psalmos, Ps. CVII:  PL 26, 1224).


Pp. João Paulo II.
Audiência Geral de 28 de Maio de 2003.
 Extraído do site do Vaticano


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