sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Contemplatio


Monge cartuxo em meditação da Palavra

(...) A contemplação é inserir-nos no mistério silencioso de Deus e provar tudo o quanto ele tem a nos conceder. Deus é sempre uma novidade dada a se revelar, ele é inesgotável, quanto mais inseridos nele mais temos a descobrir, tanto que, fez-nos para a eternidade, que nada mais é que a comunhão plena na verdade de nossos seres. Diante  de bem tão grandioso devemos nos pasmar e calar, permitirmos ser invadidos. Já que todo contato com Deus se dá por iniciativa dele mesmo, ao revelar ele se revela. Tudo o que temos da realidade espiritual nos foi dada por ele de alguma forma. (...) Contemplar é se deparar com o inexplicável e assumí-lo com fé, e não somente com fé, mas também com amor.

(...) A contemplação é a expressão mais forte do contato do homem para com Deus. É a consciência, admiração e elevação à Fonte única e verdadeira de todo bem levado pela certeza inexplicável de sua existência, unicamente baseada na fé. É ver espiritualmente já que os olhos da carne só alcançam o perecível, contudo indo além de nosso próprio ser e nossas faculdades. Nela perdemos o conceito do que somos e assumimos a verdade de nós mesmos. Aqui nos deparamos com as respostas mais sinceras de tudo que se passa em nós, mesmo sem efetuarmos qualquer pergunta, já que nossa própria existência é em ato um questionamento. É sermos acolhidos, como um dom dispensado a nossa humanidade para que encontre sua maior verdade e razão de ser. Onde nossas essências se unem fazendo-nos estar em comunhão profunda despertando-nos da “ilusão” de nossa vida passageira, onde temos o conhecimento puro do princípio e do fim de todas as coisas.
(...) Lembremo-nos que é um dom de Deus, onde cada contemplativo tem sua maneira de vivenciar. O correto seria permitir-nos levar pelas mãos magistrais daquele que é o “objeto” da contemplação, o próprio Deus. Pois o quanto mais quisermos “dissecarmos” a contemplação, mais esvaziaremos seu sentido. Ela está fora de nossos parâmetros, raciocínios e conceitos. Cometeremos o risco de superficializarmos e a colocarmos encaixada em nossa vida como mero componente adquirido pela reflexão (...).



Tomas MERTON. Novas sementes de Comtemplação. p. 28, (Ed. Fissus, Rio de Janeiro), 2001.


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