terça-feira, 6 de dezembro de 2011

O falso rosto de Deus.

O cristianismo hodierno passa por uma crise que poderia ser denominada de crise de testemunho.  Gandhi afirmou certa vez: "Não conheço ninguém que tenha feito mais para a humanidade do que Jesus. De fato, não há nada de errado no cristianismo. O problema são vocês, cristãos. Vocês nem começaram a viver segundo os seus próprios ensinamentos." Para alguém quem nem mesmo foi cristão, esse homem entendeu muito bem o dilema que temos passado. Cada vez mais, descobrimos que há uma estranha dicotomia entre aquilo que se vive e o que professamos com nossos lábios. Penso que isso não é novidade, pois já falava o profeta: “Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de Mim” (Is. 29,13). Não se trata simplesmente de hipocrisia ou uma falsidade maldosa é algo mais profundo e problemático.
Um exemplo que ilustra esta realidade é o seguinte: em muitas de nossas igrejas, convivemos com pessoas que estão, a primeira vista, em um patamar elevado, ou aparentemente adiantadas no pregresso espiritual. Mas ao olhar com atenção, vemos que muitos estão vivendo uma duplicidade vida e, muitas vezes, não se dão conta disso. Na igreja agem com tamanha piedade que mais parecem “anjos”, mas no ambiente familiar e profissional, agem com a malícia de “demônios”. Qual seria o real motivo desta falta de testemunho em nosso meio?   
Como já disse, penso não se tratar de simplesmente hipocrisia, mas talvez tudo derive de algo mais complexo. Talvez seja o tipo de visão de Deus que muitos cristãos possuem. Cada vez mais, o cristianismo, de maneira geral, tem perdido sua objetividade. As pessoas têm criado para si cada qual uma imagem própria de Deus que não coincide com aquilo que o Senhor realmente é: sentimos-nos desamparados, criamos o deus-refúgio, estamos doentes, criamos o deus-que-cura (apenas isso, sem maiores compromissos), se sofremos derrotas e frustrações, criamos o deus-poder para nos socorrer. Todos estes aspectos enfatizados acima podem e devem ser atributos do verdadeiro Deus da Bíblia. Contudo, não podemos limitá-lo, fazendo dele um Deus-benfeitor que está aí apenas para nos servir e, nós em troca lhe oferecemos alguns favores em forma de serviço religioso, onde não nos deixamos envolver pela Sua totalidade. Este Deus que a fé da Igreja professa é, com certeza, capaz de transformar vidas. Isso, não apenas em seu exterior, mas dar-lhes a verdadeira conversão.
Nos últimos séculos, muitos criticaram a posição de estudiosos, como Freud, por exemplo, que afirmava que a religião gera pessoas alienadas e infantis. Na linha de suas explicações psicoanalíticas, esse “Deus” que tudo explicava e solucionava era o grande “seio materno” que equilibrava e (alienava) os homens em meio aos perigos e dificuldades da vida, e os fazia evitar a luta aberta no campo da liberdade e da independência[1]. Ao inventar para si um deus (que é projeção de si mesmo, de sua subjetividade) o homem mantém-se estagnado e alienado, e não avança rumo à verdadeira maturidade e liberdade, que só existe no relacionamento do verdadeiro Deus. Muitos vivem nessa mentira criada pela imaginação, onde adoram um falso rosto de Deus, que criaram à sua imagem e semelhança, ao invés de se deixarem-se transformar pelo Deus vivo.
Quando me abro ao relacionamento sincero com o Deus bíblico, ele me faz abrir mão de minhas pseudo-seguranças e enfrentar a realidade como é de fato. Mesmo que isso que me cause alguma dor e sofrimento, é sempre suportável, quando O tenho ao meu lado. É ele que me dá pés velozes como os das corças e me faz estar seguro nas alturas (cf. Sl. 18, 34). Aqui não há lugar para angelicalismo (agir como anjos) e hipocrisia, mas no relacionamento com Deus me torno mais humano. E Neste contato com Transcendente, também me abro ao próximo, pelo viés da Caridade cristã, que gera o autêntico testemunho cristão. Deus não criou o homem para a infantilidade, mas para alcançarmos a maturidade de Cristo (cf. Ef. 4,13), na liberdade.
No dia 21 de janeiro comemoramos o dia mundial da Religião, onde todas as religiões do mundo são lembradas. Entretanto, não são todos os caminhos que nos levam ao Deus verdadeiro, existem muitos deuses (obras de mãos e mentes humanas) que são cultuados hoje em dia. Se nós, cristãos declarados, fossemos mais fiéis ao Senhor e testemunhássemos com veracidade o Deus que professamos, talvez não houvesse tantas religiões no mundo. Lembremo-nos do conhecido chavão: palavras convertem, mas testemunhos arrastam.



[1] Cf. Inácio LARRANAGA. Mostra-me o teu rosto (caminho para a intimidade com Deus), p. 353s.

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